Não ouso nem mais cantar, pois há tempos perdi a harmonia, a métrica, o rumo e a rima. Perdi o desejo, a força, a coragem, o incentivo. E junto foi-se o brilho, a esperança e os meus vinte anos. E quanto mais os dias passam, mais a realidade me sufoca. Sinto como se tivesse parado no tempo. Congelado. E de repente despertei, ainda adolescente, mas com vinte e tantos anos e nenhum juízo, nenhuma promessa de futuro. Apenas sonhos e mais sonhos desorientados em meio ao turbilhão de cobranças e impossibilidades.
Me sinto nua, espancada, largada num canto e ignorada. Me sinto cada dia mais impotente, insuficiente, desprezível. Nem eu mesma consigo me encarar no espelho e me encorajar a enfrentar minha própria sorte. Queria acordar desse pesadelo e me tornar mais forte, menos preguiçosa, mais adulta, mais desejável. Quero poder respirar calmamente com a certeza de que valeu a pena viver cada segundo do meu dia por ter feito algo útil. Mas me sinto fútil, perdida, sofrida.
Preciso de ânimo.