Num dia de chuva e acordes tristes, de cores pálidas e versos trêmulos, não sabia bem ao certo o que fazia ali pensando naquelas mesmas idéias repetidas ao longo dos anos. E quantos anos. Muitos. Um quarto de século pelo menos. Quanto tempo desperdiçado, quantas coisas incompletas, quantos sonhos surreais de uma vida que nunca lhe pertenceu.
Tentava por horas concentrar suas forças em algum resquício de inteligência e moral que ainda pudessem restar, mas nada parecia funcionar. Entre um soluço e outro solubilizava dores, defeitos, tragédias e delírios tentando encobrir sua falta de capacidade de domar sua vida ou aceitar os fatos como eles realmente são.
Sempre perdeu seu tempo, e de quem lhe desse conversa, inventando motivos para tanta tristeza e desilusão. Até certo ponto parecia coerente, porém em algum momento todos percebiam que não passava de uma criança descontrolada tentando evitar ao máximo crescer e sair de baixo da saia da mãe.
Naquele instante, aceitar o fato de que sua vida estava acabada não iria contornar a situação. Talvez soubesse disso e tentasse se agarrar às lições que sua mãe lhe ensinava dia após dia, mas o medo e a sensação de insuficiência e derrota eram bem maiores.
Pedia uma corda, uma pedra, uma ponte, um copo ou qualquer coisa que fizesse esquecer. E pelo visto nada que lhe faça criar vergonha na cara.