15/08/2012

Senta que lá vem história!


     Toda essa minha desilusão amorosa começou muito cedo na minha vida. Lembro-me de ter aproximadamente 6 anos e estar sentada no balanço do jardim de infância da minha escola e ver uma amiguinha minha sentar ao meu lado e me perguntar de quem eu gostava. Eu hesitei em contar da minha paixão pelo menino loirinho da minha sala, mas ela garantiu que era minha amiga e que não ia contar a ninguém. Eu acreditei nela e disse o nome do menino. Mal deu tempo de pronunciar o nome dele e a minha querida amiga saiu correndo em direção à rodinha de meninos e contou bem alto o meu segredo e todos riram da minha cara. Continuei estudando com as mesmas crianças por anos e por todos esses anos eu continuei gostando do menino, mesmo sob os olhares maldosos e sendo ridicularizada na frente de todos, inclusive dele, por causa deste fato.
   
     Foi desde cedo que eu me dei conta de que não era bom me apaixonar e muito menos contar pra quem quer que fosse que eu sentia algo por alguém. Lembro dos meus irmãos mais velhos caçoando a minha irmã por causa do número excessivo de namorados que ela teve ao longo de sua vida. Eu não queria passar por isso. Já caçoavam de mim por tantos outros motivos, não queria nem ao menos ter namorados caso tivesse a chance de conseguir um. E assim fui crescendo, associando afeto, paixão e amor a coisas ruins, até pelo fato de nenhum menino ter se declarado pra mim ou me convidado pra qualquer coisa que não fosse jogar truco ou encher a cara em algum lugar.

     Foi difícil conviver com isso durante a minha adolescência. Eu via as meninas ao meu redor eufóricas por terem ficado com fulano ou terem começado a namorar e a única coisa que eu sentia era uma faca enfiada no meu estômago que doía só de pensar em me aproximar de alguém. Mas com o tempo essa faca foi se instalando em mim de tal maneira que eu talvez até tenha aprendido a conviver com a dor. Terminei o colégio aos dezessete anos tendo ficado com 2 meninos até aquele momento, sendo que um confessou ter ficado comigo apenas para se aproximar de uma amiga minha que ele queria pegar. Nesse momento também percebi que alguns meninos provavelmente já nascem cafajestes.

     Mas, cresci. Cheguei à vida adulta aos trancos e barrancos sofrendo por acreditar que na verdade eu não despertava interesse em nenhuma alma viva e que provavelmente os meninos que tentassem ficar comigo só o fariam para conseguir alguma coisa. Tentei me conformar com a minha sina. Continuei me apaixonando e sofrendo por manter o sentimento guardado dentro de mim ou por ver o cara agir como se nunca tivesse acontecido nada depois de ter ficado comigo.Talvez algum desses caras até tenha sentido alguma coisa por mim, mas eu não costumo acreditar nisso. Parece que se eu acreditar nesse tipo de coisa ficarei vulnerável para que ele faça gato e sapato de mim e no fim vou acabar sofrendo ainda mais por ter acreditado. 

     Só que a essa altura da minha vida são tantas facas enfiadas no meu estômago que se eu der um sorriso vou me dilacerar por completo. Olho pra trás e percebo que toda a minha trajetória me trouxe a esse ponto da minha vida, no qual eu fecho a porta atrás da pessoa mesmo querendo mantê-la aberta e dizer em voz alta “fique um pouco mais.” Porque agora eu percebi que não tenho medo de falar o que eu sinto, eu tenho medo é de ouvir que não faz diferença, que não dá pra ser. Eu tenho medo da rejeição.

11/08/2012

eu

Eu imploro por justiça,
mas enquanto eu espero
acendo um cigarro, bebo um gole de cerveja
e de longe, bem de longe consigo ver teus olhos
me julgando inconscientemente
sem saber do desespero que corre em minhas veias.
Eu que parecia calma, eu que me julgava onipotente
caí no choro à beira do abismo
sabendo que depois da queda haveria o fundo do poço sem fundo.
Eu sim gastei o meu dinheiro em algo que me acalmasse
algo forte e duradouro que pudesse me derrubar.
Mas depois de cair, quem sabe antes de chegar ao chão,
queria teu apoio, teu abraço.
Queria que me dissestes que sou forte, que vou conseguir.
Queria companhia.

30/07/2012

Black and white rainbow

Se eu mudasse algumas cores em mim,
seria suficiente para ofuscar algumas cores do mundo?

Gostei das suas novas cores...
mas elas continuam não me abraçando.

Não faz diferença agora, eu acho.

28/07/2012

Decadência

era estranho acreditar no teu sorriso
quando me olhou pensei que algo me faltava e decidi procurar
e caminhei a passos lentos
mantendo a mente contra as nuvens e os pés atados rente ao mar

num suspiro acreditei
que minha vida estava atada a tua e então eu resolvi arriscar
me atirei daquela ponte
e o errado virou certo e com o vento comecei a voar

de tão alto que voei
tive a impressão de te sentir ao meu lado e comecei a deslisar
na escuridão do devaneio
eu tropecei naquela esquina e tua mão me deixou escapar

na queda livre eu senti o desespero
por um instante no meio do precipício desejei acordar
mas no meu sonho eu caí em teus braços
foi de repente e quando acordei você não estava lá

posso sentir o cheiro da decadência
enquanto escuto a tua voz ecoando em outro lugar
caminho contra a corrente
o desespero que me trouxe aqui e agora não sei como voltar

quero quebrar este ciclo
dar meia-volta volta e meia quem me dera eu sair do lugar
vou cobrar as velhas dívidas
quem sabe um dia nesse mundo eu volte a te encontrar

26/06/2012

nenhuma nova mensagem

Desistira de abrir a janela, conferir o telefone e até mesmo de colocar os pés porta afora. Conformou-se, mesmo sem entender, em nunca ter sido agraciada com flores, vinhos, convites para jantar. A vida deveria fazer sentido mesmo para quem nunca fará par romântico com algum apaixonado qualquer. Precisava apenas resgatar a força de vontade e a dedicação para construir sua carreira a fim de tornar-se independente para poder cuidar de cinco gatos e dois cachorros, os amores mais sinceros de sua vida. 

E seguia sua rotina deprimente, fantasiosa, solitária, colocando a cafeteira para rodar dia após dia com apenas uma xícara de café e o sabor amargo da angústia de não ser boa o suficiente para qualquer coisa.

Sabia quase nada de quase tudo e nada disso algum dia foi o suficiente para tomar um rumo na vida. Mas mesmo com toda insatisfação corroendo-lhe o estômago e arranhando-lhe a garganta continuou tentando sorrir para todos, todos os dias esperando que seus sorrisos lhe trouxessem flores, cores, amores, convites, satisfações.

12/04/2012

temporal

Não quero ser futuro do pretérito,
Tampouco pretérito mais-que-perfeito.
Quero ter direito de estar presente
Sem ser inconveniente.

Se for verbo conjugado
Que seja ao lado de quem quiser me conjugar.
Sem me julgar.
Ser por estar.

Quero compor narrativas
Na primeira pessoa do plural
Para que por bem ou por mal
A terceira pessoa do singular desapareça.

De qualquer modo,
Prefiro esquecer do subjuntivo
Sem tornar imperativo
O indicativo desta questão.

Mesmo gramaticalmente incorreta,
Não quero ser passa-tempo.
Me conjugue no presente
E deixe o passado se conjugar.

03/04/2012

branco

Qual é o gosto do desgosto, do descaso, da insuficiência? A mistura de dores e sabores agora se confunde com o que sobrou no fundo da garrafa que eu usei para encher o último copo. Mas até chegar nesse ponto foram tantos copos e tantas garrafas que já nem lembro ao certo se eu bebia por prazer ou por costume. Sei que o que bebi, depois de um tempo acabou por inebriar-me e neste estado deplorável o sujeito já não responde mais por si. A euforia inicial transformou-se em melancolia e não há acorde maior me que faça sorrir. Então, estagnei. Atingi o ápice de um estado catatônico que bloqueou completamente meu raciocínio. Preciso continuar, mas não sei que caminho seguir. Na verdade de onde estou não enxergo caminho algum.

11/03/2012

Replace and be replaced


A tranquilidade vem quando encontramos nosso papel no planeta. É difícil saber ao certo onde nos enquadramos, o que devemos fazer. Alguns nascem para ser destaque, para serem desejados, outros nascem para passarem despercebidos, mas alguns nascem para serem os substitutos, podem brilhar por alguns instantes, ou simplesmente desaparecer quando for necessário.

Os substitutos podem preencher qualquer lugar, podem interpretar qualquer papel. São pessoas que estão ali para dar apoio, ajudar com algo, ou esvaziar a cabeça de alguém. Podem ser o amigo que você liga quando precisa desabafar ou a amante que você procurar para aliviar a cabeça da rotina amorosa com a pessoa que você planejou passar o resto da sua vida.

Substituem e depois são substituídos. Nunca ocupam de verdade algum lugar nem parecem ter um rumo certo para suas vidas. Podem pensar em algo a longo prazo, mas quando o universo precisa de uma substituição ali estão eles prontos para substituir, muitas vezes sem nem ao menos perceber o que quer dizer. E os planos mudam, as decepções vêm, o estômago é dilacerado por inúmeras preocupações e sentimentos de impotência, insuficiência. Por que não eu? Por que não eu a esposa, o chefe, o promovido? Por que eu duro apenas uma noite, uma semana, um acaso? Inúmeras são as vezes em que um substituto pensa que não tem capacidade para nada, nunca irá encontrar seu lugar, seu destino, sua metade.

É então quando realiza que vai muito além de ocupar uma posição. Substituir é um ato de amor maior do que qualquer outro. Substitutos são procurados quando os outros precisam de um amparo, de um alento, de ajuda, carinho, compreensão. E assim substitui-se a dor, a derrota, alimentando-se do que causa dor e frustração nos outros transformando esses sentimentos em algo melhor. Porque é fácil de perceber que o dom da substituição carrega consigo a criatividade. A capacidade de transformar a dor alheia, a melancolia, em algo belo.  

No fim, quando nada parecia fazer sentindo, compreende-se que a substituição nada mais é que uma arte. Pode parecer triste e insignificante, mas os outros precisam sempre de alguém para preencher um vazio de natureza qualquer. Os substitutos possuem a força e a dedicação necessária para fazer isso acontecer.

Assim, logo que compreendi o segredo por trás de tudo isso, passei a encarar com menos amargura meu papel no universo. Nunca serei a única, meus planos provavelmente não darão certo, mas tenho certeza que poderei ajudar muitas pessoas ao longo do meu caminho e se esse for o motivo que me faz chorar todas as noites, que eu possa transformar isto em um ato de caridade pelos outros.