Toda essa minha desilusão amorosa começou muito cedo na
minha vida. Lembro-me de ter aproximadamente 6 anos e estar sentada no balanço
do jardim de infância da minha escola e ver uma amiguinha minha sentar ao meu
lado e me perguntar de quem eu gostava. Eu hesitei em contar da minha paixão
pelo menino loirinho da minha sala, mas ela garantiu que era minha amiga e que
não ia contar a ninguém. Eu acreditei nela e disse o nome do menino. Mal deu
tempo de pronunciar o nome dele e a minha querida amiga saiu correndo em
direção à rodinha de meninos e contou bem alto o meu segredo e todos riram da
minha cara. Continuei estudando com as mesmas crianças por anos e por todos
esses anos eu continuei gostando do menino, mesmo sob os olhares maldosos e
sendo ridicularizada na frente de todos, inclusive dele, por causa deste fato.
Foi desde cedo que eu me dei conta de que não era bom me apaixonar e muito menos contar pra quem quer que fosse que eu sentia algo por alguém. Lembro dos meus irmãos mais velhos caçoando a minha irmã por causa do número excessivo de namorados que ela teve ao longo de sua vida. Eu não queria passar por isso. Já caçoavam de mim por tantos outros motivos, não queria nem ao menos ter namorados caso tivesse a chance de conseguir um. E assim fui crescendo, associando afeto, paixão e amor a coisas ruins, até pelo fato de nenhum menino ter se declarado pra mim ou me convidado pra qualquer coisa que não fosse jogar truco ou encher a cara em algum lugar.
Foi difícil conviver com isso durante a minha adolescência. Eu via as meninas ao meu redor eufóricas por terem ficado com fulano ou terem começado a namorar e a única coisa que eu sentia era uma faca enfiada no meu estômago que doía só de pensar em me aproximar de alguém. Mas com o tempo essa faca foi se instalando em mim de tal maneira que eu talvez até tenha aprendido a conviver com a dor. Terminei o colégio aos dezessete anos tendo ficado com 2 meninos até aquele momento, sendo que um confessou ter ficado comigo apenas para se aproximar de uma amiga minha que ele queria pegar. Nesse momento também percebi que alguns meninos provavelmente já nascem cafajestes.
Mas, cresci. Cheguei à vida adulta aos trancos e barrancos sofrendo por acreditar que na verdade eu não despertava interesse em nenhuma alma viva e que provavelmente os meninos que tentassem ficar comigo só o fariam para conseguir alguma coisa. Tentei me conformar com a minha sina. Continuei me apaixonando e sofrendo por manter o sentimento guardado dentro de mim ou por ver o cara agir como se nunca tivesse acontecido nada depois de ter ficado comigo.Talvez algum desses caras até tenha sentido alguma coisa por mim, mas eu não costumo acreditar nisso. Parece que se eu acreditar nesse tipo de coisa ficarei vulnerável para que ele faça gato e sapato de mim e no fim vou acabar sofrendo ainda mais por ter acreditado.
Só que a essa altura da minha vida são tantas facas enfiadas no meu estômago que se eu der um sorriso vou me dilacerar por completo. Olho pra trás e percebo que toda a minha trajetória me trouxe a esse ponto da minha vida, no qual eu fecho a porta atrás da pessoa mesmo querendo mantê-la aberta e dizer em voz alta “fique um pouco mais.” Porque agora eu percebi que não tenho medo de falar o que eu sinto, eu tenho medo é de ouvir que não faz diferença, que não dá pra ser. Eu tenho medo da rejeição.
